Arquivo da categoria 'Memórias'

“Receber o Postal”!

school mates gossip

Creio que isto terá acontecido de forma semelhante com muitas de nós, mas eu era ainda uma teenager quando percebi que uma boa parte dos meus sonhos com algumas das minhas amigas e com outras mulheres em geral tinham um significado especial.

A “revelação” aconteceu um belo dia, enquanto regressava a casa com uma das minhas amigas de escola, quando ela começou a fazer comentários sobre um casal que caminhava na nossa frente, dizendo que o rapaz era muito giro. O curioso é que, enquanto ela não se cansava de falar sobre o rapaz, e de elogiar os seus belos atributos, eu ia pensando cá com os meus botões que não me importava mesmo nada era de namorar a miúda gira com que ele estava!

Foi mais ou menos assim que “recebi o postal”: afinal eu sou gay!

As três graças, ou mais…

alecio-de-andrade

Por questões laborais, muitas vezes viajo para fora da “Aldeia”, e ao longo dos anos tenho tido a “graça” de poder conhecer outros países e outras culturas.

Apesar disso, nem sempre tenho como partilhar aquilo que vejo e vivo nessas viagens.

Por exemplo, uma visita a um museu, nos dias que correm, raramente nos possibilita sequer tirar fotos no seu interior - o que seria uma forma de mais tarde poder partilhar ou revisitar as obras e as experiências vividas nesses locais .

Algumas vezes lamento mais este facto, especialmente se as obras expostas me tocam realmente.

Recentemente, numa deslocação ao Rio de Janeiro, tive finalmente a oportunidade de visitar, no Museu Nacional de Belas Artes, uma exposição sobre a qual já tinha ouvido falar inúmeras vezes. Chama-se “O Louvre e seus visitantes” do fotógrafo Alécio de Andrade, e considero que esta é mesmo uma exposição a não perder.

Lamentavelmente, desta feita era eu quem não tinha máquina fotográfica, mas, por aqui  podem ver algumas das obras expostas, através das fotos tiradas por Lucia Adverse.

Gostei especialmente do sentido de humor em todas elas. Aqui fica a dica, para quem quiser espreitar!

 

Nota: Não, este blog não se está a transformar num convento… apenas umas freiras levaram a outras! É como aquela coisa das cerejas! :P

Princesinha do Mar

4. Copacabana - Rio de Janeiro

“E à tardinha o sol poente
Deixa sempre uma saudade na gente
(…)
Ao te beijar ficou perdido de amor
E hoje vivo a murmurar
Só a ti … eu hei de amar”

Por Alberto Ribeiro e Braguinha

O Amor e o Estômago

Tantas vezes já ouvi dizer que ao coração se chega pelo estômago… Eu sei, eu sei, não é assim para todas nós, mas segundo a sabedoria popular, será verdade para a maioria, ou pelo menos, este será um bom caminho para lá chegar! Será mesmo?

Pensei sobre este “princípio”, mas fiz uma abordagem diferente. Pensei em carência afectiva e amor. Há quem diga que a carência afectiva tem origem na nossa dificuldade em receber amor.

É aqui que o estômago entra…

Passo a explicar. Entendo o estado de carência afectiva assim como estar com fome e não ter estômago para digerir. O que levanta a questão: Como será que o nosso “estômago afectivo” se torna tão pequeno? Será porque nos fomos alimentando cada vez menos, à medida que o alimento emocional se tornou escasso ou invasivo?

Não foram poucas as vezes que os meus pais me disseram “Se comeres todo o jantar, podes comer a sobremesa…”. E assim chego novamente ao estômago…

Por outras palavras, por muito que este tipo de frase pareça inocente, acredito que revela também os condicionamentos pelos quais passei a aprender que receber modula o modo de ser.

Fui diminuindo instintivamente a minha receptividade ao associar a experiência de receber amor a vivências de insuficiência, abandono ou de um controlo excessivo.

Se nos sentimos manipulados ao receber alimentos, presentes, elogios, carícias e incentivos, associamos a ideia de receber com o dever de retribuir algo muitas vezes além da nossa capacidade ou vontade pessoal.

Não há estômago que aguente!

E foi assim, desta forma, subtilmente, com a intenção de me proteger do excesso ou da falta de atenção perante a necessidade de amar e ser amada que fui fechando o estômago, ou o coração… já não sei bem!

Isto é, fui formando camadas protectoras contra os ataques à minha vulnerabilidade. Este processo no entanto tem um efeito bastante grave: ao estar mais atenta ao que recebo do que ao que desejo, acabo por aprender a dar mais atenção ao mundo exterior que às minhas reais necessidades.

A necessidade de ser amada faz parte do meu instinto de sobrevivência, portanto é algo natural não só em mim, mas em todas nós, enquanto seres sociais. Mas, numa sociedade materialista como a nossa, onde a autonomia é sinónimo de maturidade, muitas vezes esta necessidade é vista como um sinal de imaturidade ou infantilidade.

Vou exemplificar melhor este drama. Quando a minha parceira se distancia, por razões que me são alheias, ela sente-se abandonada. Então, em vez de dizer: “Quero estar mais próxima de ti”, ela diz: “Estás distante!”. Este seu modo de me alertar sobre a sua carência é defensivo. Ela não está a agir abertamente, nem de forma transparente, pois por detrás da sua reclamação há um desejo de controlar, para que eu seja como ela quer. Eu, por minha vez, sentindo-me pressionada, perco a espontaneidade e afasto-me cada vez mais. Ela sente-se carente e torna-se refém da minha atenção!

Quando nos tornamos reféns do comportamento alheio, deixamos de estar ligadas ao nosso sentimento de amar e esperamos apenas ser amadas. Por outras palavras, ela deixa de perceber o que sente em relação a mim e apenas se atem ao que eu demonstro sentir em relação a ela. A expressão do afecto contrai-se sob a pressão e gradualmente ambas perdemos a espontaneidade.

Lá se vai o estômago… e o amor!

Dia do Pai

Hoje excepcionalmente, este espaço é dedicado a um homem: o meu Pai!

Não, não preciso de datas comemorativas para o recordar ou para lhe dedicar uma atenção especial. Temos uma relação muito próxima, para além de  Pai e Filha que sempre tem um elo especial, somos também excelentes amigos e partilhamos muita coisa. Faço mesmo questão que ele saiba o quanto gosto dele a cada dia que passa.

Ah! É também graças a ele que eu ainda acredito no Pai Natal!

Roam-se de inveja meninas…. pois eu sou mesmo filha do Papai Noel! :) Não, isso não faz de mim uma rena… E também não me chamo Rudolfa, embora segundo alguns, eu possa ser a “rena diferente” lá da Lapónia! :P

Creio que o que os faz falar mesmo é a quantidade de “bons presentes” com que ele me tem brindado ao longo dos anos – o muito amor, carinho e apoio, mesmo quando eu falei com ele sobre a minha primeira namorada! ;) Eu sei por exemplo que ele lamenta que os meus irmãos não o tenham procurado para falar com ele sobre as namoradas deles…

Bom, antes que comece a ficar lamechas (passem aí o kleenex sff!), acabo o post…

Pai, tem um excelente dia! ;)

A fonte

fonte_da-aldeia

São muitas as questões que levantamos quando um relacionamento termina.
Quero respostas para toda a dor que sinto. Pergunto-me se errei, onde errei, onde me perdi. Olho em volta e só encontro o vazio, olho para dentro de mim e só encontro dor.
Como é possível que eu me possa magoar tanto?
Os motivos que me fazem entrar em relacionamentos que acabam por deixar muita dor podem ser muitos, mas uma vez envolvida emocionalmente, mais difícil se torna sair deles ou aceitar o seu fim.

Chego à conclusão que enquanto estou com alguém muitas vezes acabo por ceder em valores que são importantes para mim, e aos poucos, a sua soma é tal que já não consigo sequer suportar conviver com quem se tornou entretanto uma total desconhecida: eu própria.
Acabo por me perder aos poucos, e nesse trajecto, inevitavelmente, acabo por perder também quem amo.
Olhando agora para trás percebo que quando o abandono me bateu à porta, muito antes de isso acontecer, já eu me havia abandonado na mesma proporção.
Esqueci-me de mim, entre tantas outras razões, por estar muito ocupada a tentar fazer a outra pessoa feliz. E foi também nesse momento que a outra pessoa fez exactamente o mesmo que eu… começou a cuidar de si mesma como se eu não existisse.

Aos poucos, sem me dar conta, fui perdendo o brilho, a energia, a vontade, a ligação com os meus sentimentos e principalmente comigo própria. E não é que os sinais não estivessem todos lá, mas simplesmente não quis ouvir que não ia dar certo.
Na verdade, será que esse sentimento de ficar sem chão, sem ar, o coração a sangrar e a alma dilacerada é por que a outra pessoa se foi embora ou por que perdi a ligação comigo mesma? Será que o meu sofrimento é por que a outra se foi embora ou é fruto da minha própria ausência?

É inegável que uma separação dói e muito, mas na verdade, devia chorar por mim própria, e principalmente, pelo que permiti que fizessem com aquilo a que dou o nome de amor.
Dei tudo! Carinho, colo, ombro, respeito, verdade, amizade, cumplicidade, sinceridade, fidelidade, e tudo mais que um ser humano quando ama é capaz de dar. Por que continuar a querer ficar próxima de quem se foi e manter-me tão distante de mim mesma? Por que ficar à espera do amor da outra pessoa, quando há tanto amor dentro de mim?

Quando cheguei a esta fonte percebi que este é o momento de descobrir as minhas próprias verdades, satisfazer as minhas necessidades, ouvir o meu coração… deixar que ele me diga o que realmente significa amar.

Amor no feminino

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Nas minhas reflexões cheguei à conclusão que não me entrego, isto a avaliar pelas minhas experiências de entrega ao longo da vida, que no mínimo não foram muito bem sucedidas. Desde muito cedo que trato de tudo o que me diz respeito e talvez por isso possa, no fundo, no fundo, contar apenas comigo.
Talvez também por esta razão tenha procurado muito cedo ajuda no mundo espiritual e com isso desenvolvido uma fé inabalável de que nunca estou só neste plano.
Sou uma pessoa algo inquieta, que não pára, e até para dormir tenho alguma dificuldade, mas finalmente encontrei um lugar onde me sentei e adormeci sem me dar conta disso.
Entreguei-me de uma forma que nem sei explicar. Foi o meu primeiro e verdadeiro encontro com a doçura do feminino. Um delicioso sentimento de ser acolhida nos braços de um amor incondicional.
Já vos conto onde foi.

Aconteceu há uns bons anos atrás, numa das minhas primeiras visitas a Paris. Numa manhã em que estava livre do trabalho, decidi ir visitar a Catedral Notre Dame – até porque um espírita amigo me havia dito que entramos na era do feminino – e Paris é sem dúvida uma cidade muito feminina, e talvez não seja por acaso que a sua antiga catedral é chamada “Notre Dame”.

Bom, cheguei à catedral e decidi sentar-me para descansar um pouco da caminhada, mas sobretudo para admirar dali a sua beleza, os vitrais, o altar as capelas. Sentada a meu lado estava uma senhora de idade que percebeu como eu admirava a beleza em minha volta e disse, enquanto se levantava para sair… “Ah! c’est vraiment beau!”
Só me lembro desta frase.
E depois dela um flash de máquina fotográfica no rosto.
Era um grupo de turistas chineses, claro! Despertei assim de um bom sono nos braços amorosos de Notre Damme.
Abri os olhos e só então percebi que tinha adormecido durante, talvez, uma hora e meia, completamente entregue à energia daquele local.
Eles davam risadinhas, divertidos com o meu ar estremunhado, e um deles disse num francês que tive alguma dificuldade em entender, mas querendo dizer mais ou menos o seguinte:
- Você deve estar mesmo exausta para dormir aqui no meio desta multidão!
Apenas concordei com a cabeça…
Há coisas que só nós sentimos e que não dá para partilhar.
Será?

Paragem de autocarro

Estava um dia horrível. Daqueles dias em que, sem que algo o fizesse prever, no meio de um calor intenso e húmido, começou a chover torrencialmente e apanhou toda a gente de surpresa.

Corri para me abrigar na paragem de autocarro que me levaria de volta à Aldeia, mas mesmo assim não consegui evitar uma grande molha. O meu humor também já tinha conhecido melhores dias e aquele calor seguido da chuvada torrencial não contribuíram certamente para o melhorar. O jornal que acabara de comprar no quiosque, utilizei-o como abrigo da chuva enquanto corria para a paragem. Pura tolice, eu sei, pois não só não me evitou a molha, como acabou por ficar empapado e num estado irrecuperável.

Para melhorar as coisas, eis que passa um daqueles condutores espertinhos que fazem questão de acertar nas poças de água que se formam quando chove e se divertem à custa dos transeuntes… acertou em cheio na poça que se formara em frente à paragem e apanhei um banho de alto a baixo! Enquanto o insultei de tudo o que me veio à cabeça tentei sacudir a água da roupa… em vão. Sentei-me furiosa no pequeno banco da paragem de autocarro, procurando um ângulo em que a chuva que teimava em cair não me atingisse.

Coloquei a minha cara 38 e estava capaz de morder o primeiro incauto que se aproximasse e tentasse sequer trocar uma palavra comigo. Enquanto maldizia o tempo e a vida, só desejava que o autocarro chegasse e me levasse a casa onde um bom duche quente talvez me salvasse daquele estado miserável.

Foi neste momento que senti que alguém se aproximava de mim e olhei com a minha cara de poucos amigos para evitar qualquer tipo de conversa. Era uma mulher jovem, muito bonita, que tentava também abrigar-se da chuva no espaço exíguo da paragem onde eu me encontrava. Não sei de onde veio a minha súbita boa disposição e vontade de comunicar, mas ao olhar aquela mulher, de imediato a minha cara se transformou num sorriso amistoso e prontamente me desloquei um pouco para o lado, no banco, dando-lhe espaço para que se sentasse, apesar de isso implicar que eu iria ficar um pouco exposta à chuva.

- Está um dia horrível, não está? – Perguntei.

- Sim, está mesmo. – Respondeu, enquanto com um lenço procurava enxugar o rosto, o que a fez ficar praticamente sem maquilhagem, mas tornou o seu rosto ainda mais radiante.

Ela trazia vestida uma camisa e uma saia, roupa típica de quem trabalha num escritório ou algo do género, mas que com a chuva se haviam colado por completo, delineando perfeitamente as linhas do seu corpo.

- Vem do trabalho? – Perguntei. Aliás, foi a única pergunta que me ocorreu e que me permitiria ganhar mais algum tempo para poder continuar a olhar para ela e para o seu bonito corpo, admirando as suas formas sem me tornar suspeita.

- Sim, venho. Esta chuva apanhou-me completamente desprevenida. Estou encharcada. – Respondeu com ar pesaroso.

Estive a ponto de lhe dizer que apesar do desconforto, aquela chuva lhe assentava muito bem. O efeito causado no seu cabelo longo e molhado, a roupa colada ao corpo, o rosto lavado e reluzente… em vez disso, saíu-me uma frase que ainda hoje me pergunto onde a fui buscar:

- O aquecimento global está a fazer notar cada vez mais os seus efeitos.

- Sim, é verdade. – Disse com um sorriso.

Mas que estava eu a dizer? Que raio de conversa mais gasta era esta que eu estava a fazer? De onde vinham aquelas palavras. Nunca na minha vida me imaginaria sequer a fazer uma conversa destas.

- Está a chegar o meu autocarro! Também vem neste? – Perguntou-me.

- Não. Vou para outro lado. – Respondi.

Sorriu e começou a encaminhar-se para o autocarro. Foi então que me surpreendi ainda mais a mim própria, quando ouvi a minha voz dizer bem alto:

- Olhe… Obrigada!

Ela parou, deu meia volta e olhou para mim com um ar de incredulidade e surpresa que me fez desejar enfiar pelo chão abaixo e pedindo a todos os santos para que mais ninguém tivesse ouvido o que eu acabara de dizer.

- Obrigada? Porquê? – Perguntou-me.

- Por me ter alegrado o dia. – Respondi.

Ela acenou um adeus com a mão e correu para o autocarro que entretanto já retomava a sua marcha.

Dirigi-me ao cesto do lixo mais próximo e arremessei lá para dentro o jornal empapado que ainda tinha na mão, como se com aquele gesto pudesse também retirar da minha cabeça aquela linda jovem e os meus pensamentos sobre ela. Olhei ainda enquanto o autocarro se afastava e fiquei ali na paragem aguardando a chegada do meu autocarro, com uma diferença; agora, para além do mau humor que voltou, estava também acompanhada de um estranho sentimento de perda.

Que dizer quando o amor acaba?

Ouvi hoje na rádio local, enquanto retirava as ervas daninhas do canteiro de amores-perfeitos que tenho no meu quintal, uma frase que me fez recordar um amor antigo.

Que dizer quando o amor acaba?”

Já muitas vezes me colocara a questão, mas antes, tal como agora, quando me questiono sobre aquela que foi a minha notória incapacidade de falar, discutir e defender o que sentia, não chego a conclusão alguma… esta foi mesmo uma das poucas ocasiões que recordo em que as palavras não me saíram. Hoje continuo sem encontrar as palavras e continuo também sem saber explicar como e por que acabou.

Tal como este canteiro de amores-perfeitos, de onde hoje cuidadosamente retiro as ervas daninhas, talvez o meu amor por ela necessitasse de maior cuidado, não sei.

Os amores-perfeitos são frágeis. Enquanto os cuido, tento perceber os seus traços. Parecem ter firmeza, nas suas cores vivas, nos seus contrastes, mas ao sabor do vento crescem e ondulam, como que traçando o rumo de estrelas cadentes.

Tento colocar em palavras os traços destes amores-perfeitos. Que dizer quando o amor acaba, se as minhas palavras têm justamente os tons e os traços de um amor longe… longe de ser perfeito?


 

Maio 2012
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